A ideia de que a inteligência artificial deixou de ser apenas um suporte tecnológico para se tornar um elemento estruturante da comunicação institucional orientou as discussões do evento on-line “Conexão IA – Boas Práticas de Comunicação do Ministério Público”, realizado nessa terça-feira, 7 de abril, pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Ao reunir profissionais de comunicação do MP de todo o país e especialistas na área de IA, o evento evidenciou que o uso da inteligência artificial já impacta a forma como a instituição produz, organiza e divulga informações sobre o trabalho que realiza.
Na abertura, o secretário-geral adjunto do CNMP, Michel Betenjane Romano, situou essa mudança como parte de uma transformação mais profunda. Segundo ele, o momento atual representa uma “segunda onda” da inteligência artificial, mais silenciosa, porém estrutural, em que instituições passam a reorganizar seus próprios modelos de funcionamento. Nesse contexto, afirmou, não basta tratar a IA como ferramenta: “mais do que pensar a IA como tecnologia, temos que reestruturar nossos negócios em torno dela”.
Em linha com essa perspectiva, ele destacou que a adoção da IA exige organização interna, definição de processos e capacitação contínua das equipes, sem perder de vista aspectos críticos como ética, confiabilidade da informação e proteção de dados.
A secretária de Comunicação do CNMP, Natália Senna, reforçou que essa transformação passa necessariamente pela construção coletiva de conhecimento. Segundo ela, o evento teve como foco “promover o intercâmbio de práticas, iniciativas e soluções já adotadas nas unidades do Ministério Público, ampliando o repertório das equipes e qualificando o uso da inteligência artificial na comunicação”. Ela destacou que a adoção da inteligência artificial nas rotinas de comunicação exige troca estruturada e alinhamento institucional quanto aos seus usos possíveis.
Essa necessidade de integração também foi enfatizada pela secretária de Comunicação adjunta, Bruna Valadão. Para ela, “olhar experiências bem-sucedidas permite encurtar caminhos, evitar retrabalho e obter avanços, com mais segurança, na adoção dessas ferramentas”. Em contrapartida, a incorporação da IA demanda o enfrentamento estruturado de desafios. “Estamos falando de capacitação das equipes, definição de fluxos, diretrizes e normativos internos, além de questões éticas que envolvem transparência e proteção de dados”, afirmou.
Cola social
A dimensão mais ampla dessa transformação foi aprofundada pelo professor e jornalista Diogo Cortiz (foto à esquerda), que destacou o papel da linguagem como elemento central dessa nova fase. “A IA domina a linguagem, que é a cola social”, afirmou, ao explicar que essa capacidade rompe uma fronteira histórica entre humanos e máquinas. Segundo ele, esse domínio não apenas altera a interação com a tecnologia, como também inaugura novos paradigmas — econômicos, sociais, afetivos e cognitivos.
Cortiz chamou a atenção para o chamado “paradigma do primeiro rascunho”, no qual a facilidade oferecida pela IA pode levar à terceirização de processos cognitivos. Ele alertou que há um risco concreto de os profissionais passarem a ancorar suas ideias no que a ferramenta produz, limitando o desenvolvimento de pensamento próprio. Por outro lado, ponderou que, quando utilizada como suporte, e não como substituição, a IA pode expandir a capacidade criativa e analítica. Nesse cenário, afirmou que o desafio é definir em que etapa do processo a tecnologia deve ser incorporada para ampliar, e não restringir, o repertório humano.
Essa mesma lógica foi retomada pelo jornalista e consultor Pedro Burgos (foto à direita), ao afirmar que a inteligência artificial não substitui pessoas, mas amplia suas capacidades. Segundo ele, a tecnologia permite realizar análises e executar tarefas antes inviáveis, especialmente em contextos de equipes reduzidas. Ainda assim, destacou que sua adoção no setor público enfrenta entraves técnicos e institucionais, embora o interesse crescente indique uma mudança em curso.
Burgos também apontou que o impacto da IA ultrapassa a produção de conteúdo e deve alcançar a forma como o cidadão se relaciona com o Estado. Ele exemplificou possíveis usos de IA nos canais de interação com o cidadão, para que este possa não apenas se informar, mas também agir.
Ao mesmo tempo, ressaltou a importância de monitorar continuamente a percepção pública sobre o uso dessas ferramentas. “É importante pensar onde devemos colocar a nossa humanidade e o que podemos delegar às máquinas”, disse, ao defender o equilíbrio entre automação e responsabilidade humana.
Aplicações no MP
A aplicação prática desses conceitos foi evidenciada na mostra de experiências do evento, que reuniu iniciativas do CNMP e de diferentes ramos do Ministério Público.
A campanha interna “Ética na Caneca”, do CNMP, teve como pilar a tônica de que boas ideias permanecem simples e têm origem nas pessoas. A iniciativa utilizou um elemento cotidiano, o momento do café, para abordar, de forma acessível, o código de ética institucional.
Outras experiências reforçaram o uso estratégico da IA em diferentes frentes: o Ministério Público da Bahia apresentou uma solução para automação da avaliação de risco de imagem; o MP de Mato Grosso do Sul exibiu campanhas produzidas com IA, incluindo conteúdos sobre segurança digital e deepfakes; o Ministério Público Militar apresentou o aplicativo SentinElas, voltado à proteção de mulheres nas Forças Armadas; e o Ministério Público do Rio Grande do Sul apresentou uma cartilha de prevenção à violência contra meninas desenvolvida com apoio de IA, por meio de uma heroína inspirada nos universos Marvel e DC Comics.
Promovido pela Presidência do CNMP, com apoio do Comitê de Políticas de Comunicação (CPCOM) do Fórum Nacional de Gestão, o evento reuniu 120 comunicadores. A programação do evento também incluiu a apresentação de um diagnóstico sobre o uso e a aplicação prática de inteligência artificial nas atividades de comunicação do Ministério Público.
Fotos: Leonardo Prado (Secom/CNMP)
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