Como parte do ciclo de capacitações promovido pelo MP Digital, duas jornadas de alto nível reuniram, nos dias 7 e 8 de julho, em São Paulo, procuradores-gerais de Justiça, conselheiros do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e representantes da alta administração para refletir sobre os rumos da transformação digital institucional e o uso estratégico da inteligência artificial generativa.
Organizados pela Comissão de Planejamento Estratégico (CPE) do CNMP, em parceria com o MP Digital, a Google Cloud, a Xertica.ai e a Amazon Web Services (AWS), os encontros ocorreram com imersões presenciais nos escritórios do Google e da AWS, na capital paulista. A proposta foi promover um ambiente formativo e estratégico voltado às lideranças, ampliando a compreensão sobre o impacto das tecnologias emergentes na atuação institucional e na construção de soluções colaborativas.
Além do presidente da CPE e da Estratégia Nacional do MP Digital, conselheiro Moacyr Rey Filho, participaram dos eventos os conselheiros do CNMP Antônio Edílio Magalhães, Paulo Cezar dos Passos, Fernando Comin, Engels Muniz e Cíntia Brunetta.
Liderança e estratégia: a transformação começa com visão coletiva
Ao abrir os trabalhos no Google, o conselheiro Moacyr Rey Filho destacou que a transformação digital não se limita à adoção de novas tecnologias, mas exige uma atuação estratégica, sustentada por inteligência institucional, cultura de dados e visão colaborativa: “Estamos diante de um tema crítico para o futuro do Ministério Público. A transformação digital não se resume à aquisição de ferramentas, mas à construção de estratégias capazes de gerar valor público, com base em inteligência institucional, cultura de dados e atuação em rede”.
Ele também reforçou a importância da visão da alta gestão: “A discussão sobre IA precisa chegar à alta gestão. Se os líderes não compreenderem a relevância desse tema, será difícil consolidar as ações. Por isso, essa jornada é também uma jornada de sensibilização estratégica”.
O membro auxiliar da CPE Paulo Zani afirmou que a Base de Dados Processuais, em construção no âmbito da Plataforma MP Digital, será essencial para viabilizar essa estratégia, ao permitir que dados judiciais e extrajudiciais sejam integrados em uma base nacional, viabilizando análises integradas, projetos de IA e o desenvolvimento de soluções conjuntas. “Sem isso, cada Ministério Público segue isolado, correndo sua própria corrida, com sistemas incompatíveis e soluções que não se comunicam”, afirmou o promotor de justiça.
Soluções práticas, experiências internacionais e uso da IA no dia a dia
A imersão no Google foi centrada no potencial da IA generativa para transformar a atuação institucional, com apresentações de especialistas sobre arquitetura tecnológica, segurança, uso ético de IA e interoperabilidade. Foram compartilhadas experiências internacionais e discutidas formas de incorporar a IA aos sistemas do MP de forma integrada e estratégica.
No dia seguinte, o Encontro Executivo da AWS aprofundou o debate sobre soluções desenvolvidas com base em demandas reais de instituições públicas, com foco na resolução de problemas concretos enfrentados.
Durante o evento, o conselheiro Moacyr Rey Filho voltou a destacar o papel da liderança: “Não se trata de ser especialista em tecnologia, mas de entender a lógica da inovação, compreender sua importância e pensar estrategicamente: como financiar, estruturar e sustentar essas iniciativas. Esse é o verdadeiro papel da liderança: ir além da tecnologia, enxergar o impacto institucional e trabalhar em rede para construir um futuro sustentável para o Ministério Público”. Ele também ressaltou que “o MP precisa de soluções de propósito específico, voltadas para tarefas concretas da realidade institucional”, e que “o papel das empresas é compreender esse contexto e desenvolver tecnologias úteis para todos os MPs do país”.
O procurador-geral de Justiça do Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) e presidente do Grupo Nacional de Tecnologia da Informação (GNTI) do Conselho Nacional de Procuradores-Gerais dos Ministérios Públicos dos Estados e da União (CNPG), Halley de Carvalho, alertou para a necessidade de inverter a lógica institucional: “Hoje, 80% do nosso trabalho ainda é reativo, respondendo a ações judiciais. A ideia é tornar o Ministério Público majoritariamente extrajudicial, com foco em resolutividade, mediação, fiscalização e políticas públicas — apoiados pela inteligência artificial”. Carvalho reforçou: “Os projetos não andam sozinhos. É essencial que a liderança esteja alinhada com o processo de transformação digital, porque mais do que tecnologia, essa mudança envolve pessoas”.
Representando a AWS, o diretor de Governo, Umberto Mancebo, esclareceu que o evento não era uma apresentação de portfólio da empresa. “O que mostramos aqui são soluções desenvolvidas em conjunto com os Ministérios Públicos, com base em necessidades reais. O objetivo é refletir sobre o que a IA pode oferecer de concreto e qual impacto institucional ela pode gerar”.
Experiências aplicadas, colaboração e próximos passos
A programação contou com palestras inspiradoras sobre cultura de inovação, relato de um promotor britânico sobre boas práticas no Reino Unido e experiências práticas como o projeto do MPCE para análise automatizada de dados de celulares apreendidos. Também foi apresentada a plataforma emergencial do TJRS migrada para a nuvem após as enchentes no estado, com lições valiosas sobre resiliência tecnológica.
O clima dos eventos foi de cooperação e compromisso com o futuro institucional. A conclusão dos participantes foi clara: somente com estratégia nacional, interoperabilidade, governança de dados e construção de soluções abertas será possível fortalecer o papel do Ministério Público na era digital.
"Estamos todos aqui porque sabemos que um novo Ministério Público está surgindo e, mais que isso, porque ninguém aqui quer fugir dessa transformação. Compreender esse processo, participar dele ativamente, é o que vai permitir que o Ministério Público continue sendo uma instituição forte, relevante e à altura de sua missão constitucional." A declaração foi feita pelo presidente do CNPG e procurador-geral de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), Georges Seigneur, ao concluir os trabalhos do evento e agradecer a presença expressiva dos procuradores-gerais de Justiça de todos os ramos e unidades do país.
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